Do que a felicidade gosta.

Por: fabiserra

jan 29 2011

Categoria: Sem categoria

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(“A felicidade sempre mora na rua em que moramos” –
é a moral desta história de 1949, que prova além disso
que o retrato falado, tantas vezes usado pela polícia na
caça a criminosos, já fora inventado naquele tempo, por
meu amigo Harrer.)

Meu amigo Harrer casa-se amanhã. Com uma mocinha muito suave. Vou ser padrinho dos dois. O outro padrinho é condutor de trem. Trabalha na linha 7. Chama-se Brettschneider. A namorada de Harrer chama-se Evelyn. A história de como Harrer encontrou Evelyn, de como a perdeu e reencontrou, tem uma moral. Por isso a reproduzo aqui.

Meu amigo Harrer é chefe de seção de uma grande loja. Tem aos seus cuidados a seção de brinquedos. Uma seção divertida, a mais divertida de todas! Visito meu amigo Harrer seguidamente, quando ele trabalha, porque gosto de ouvir crianças rindo. E, com meu amigo Harrer, elas riem sem parar, tantas são as brincadeiras que lhe ocorrem.

Meu amigo Harrer é homem singularmente pontual. Manhã pós manhã ele vai à loja no mesmo trem. Sempre parte às sete e quarenta e quatro em ponto. Faz isso há anos, exceto aos domingos e feriados.

Foi nesse trem das sete e querenta e quatro, da linha 7, que meu amigo Harrer viu Evelyn pela primeira vez. Certa manhã, ela estava sentada à sua frente. Evelyn usava um costume inglês cinza, chapéu cinza, parecido com os chapéus que a sra. Eva Bartok usava, sapatos brancos, luvas brancas e uma carteira branca. Sua boca – contou-me naquela noite meu delirante amigo – era rubra como sangue, a pele, pura como a neve que ainda cai, o cabelo, negro como ébano. Não sei exatamente quanto ébano é negro, mas Harrer afirmou que era a coisa mais negra do mundo.

Bem, lá estava ela. E Harrer a encarava. Ela olhava pela janela, sem fitá-lo, como fazem as moças quando notam que a gente se interessa por elas. Depois, casualmente, ela encarou meu amigo e novamente o ignorou. Ele sorriu um pouco. E ficaram nesse jogo durante certo tempo. Os dois eram bastante tímidos. E estavam nervosos…

Por fim, a moça teve de descer. Passou por Harrer quando deixou o vagão. Cheirava a juventude e sabonete inglês. Harrer seguiu-a logamente com o olhar. Nesse dia ocorreram-lhe muitas brincadeiras na sua seção – era porque estava muito contente.

Na manhã seguinte, às sete e quarenta e quatro ao entrar no trem, ele viu a moça ali sentada outra vez. Sorria, envergonhada. E jogaram seu pequeno jogo, como no dia anterior – até a mocinha desembarcar.

Serei breve: a partir de então, exceto aos domingos e feriados, diariamente ocorria a mesma coisa mo trem da linha 7. Harrer e a mocinha estranha se encaravam . Não se falavam. Apenas se olhavam. E sorriam. Eu já disse que meu amigo Harrer é tímido. Mesmo quando está loucamente apaixonado. Especialmente. E a mocinha não podia interpretá-lo, não é? Nesse estágio do seu amor só havia um assunto em que se podia falar com Harrer: ela.

Depois de três semanas, a situação mudou repentinamente, por assim dizer de uma manhã pra outra. É que, após essas três semanas, Harrer chegou precipitadamente a meu escritório, banhado em suor, deixou- se cair numa poltrona, fitou o chão, movendo as pernas para um lado e outro, desconexo, e murmurou:

– Embora! Ela foi embora! Eu a perdi!
– Quem? – indaguei.
– Ela. A moça do 7 sumiu – gemeu ele.
– Como sumiu? Moças não somem assim!
– Sim! Foi exatamente o que ela fez! – ele gemeu duas vezes, já me deixando nervoso. – Ela desapareceu. Esta manhã não estava no trem!
– Quem sabe se atrasou e seguiu em outro trem?
– Não, não – murmurou ele, obstinado – Eu sei, eu sinto. O destino nos separou. Nunca mais a verei. Sou o homem mais infeliz do mundo!
– Você não é o homem mais infeliz do mundo; você é um idiota – disse eu – Amanhã tudo estará em ordem! Amanhã você vai reencontrar sua mocinha!
– Você acha? – soluçou ele.
– Claro!
– Es… Espero que sim! – Ele estava abalado e dirigiu-se, deprimido, à sua seção de brinquedos.

Infelizmente minha profecia não se realizou. Na manhã seguinte Harrer não viu sua donzela. Continuava sumida. E o mundo desabou para meu amigo. O pobre ficou realmente deprimido! Começou a negligenciar sua aparência, seu trabalho, tornou-se impontual, rude, grosseiro e amargo. De vez em quando até bebia aguardente antes do anoitecer. E a moça continuava sumida.

– Preciso procurá-la – disse-me Harrer -, porque não consigo viver sem ela! Como não posso procurá-la trabalhando na loja, vou tirar férias!

Foi o que fez. E começou a ingente procura. A princípio, normalmente – mas por fim botou literalmente nossa cidade de pernas pro ar. Primeiro conversou com o sr. Brettscheneider, o condutor, que muitas vezes fora com eles no trem das sete e quarenta e quatro – na época da sua felicidade, dizia Harrer falando do tempo em que podia sentar diante da jovem estranha, contemplando-a.

– Sim, sim – disse o gordo e banachão sr. Brettscheneider -, lembro-me da moça, sr. Harrer! Acho que gostou do senhor…
Harrer gemeu como um animal ferido.
– Não falemos nisso! Tenho de encontrá-la! O senhor não faz idéia de onde ela mora?
– Como posso saber, sr. Harrer? – Disse o sr. Brettscheneider – Pergunte aos outros passageiros. Talvez algum conheça a moça.

Harrer interrogou os oito passageiros que como ele, viajavam regularmente às sete e quartenta e quatro. Três dos oito afirmaram saber onde ela morava. Deram três endereços diferentes a Harrer. Ele saltou do trem e pegou um táxi, disparando de um endereço a outro. Naturalmente, os três eram falsos…

Então Harrer contratou um pintor a quem descreveu sua amada desaparecida. O artista tentou desenhá-la até que Harrer achasse semelhança suficientemente grande. Mandou reproduzir o desenho e imprimi-lo como uma espécie de mandado de busca. Mandou grudar o mandado de busca em paredes e colunas. Nesse mandado prometia uma alta recompensa para quem desse indicações positivas, e suplicava a própria desaparecida que aparecesse. Ela não apareçeu. Nem apareceram indicações. A coisa apenas custou uma boa quantia. Harrer não precisou apenas tirar férias, mas tembém pedir um adiamento.

Depois de contastar que os cartazes não surtiram efeito, Harrer procurou detetives particulares. Contratou três deles. Os detetives correram a cidade toda. Harrer corria com eles. Olhava para o rosto de todas as mulheres que encontrava, interpelou várias das que andavam à sua frente e cujo rosto não podia ver logo, pois sua maneira de andar lembrava a da sua jovem amada. Naturalmente, eram sempre mulheres estranhas. Muitas julgaram as explicações de Harrer tentativas desajeitadas de conquistá-las. Algumas ficaram indignadas com essa tentativa e lhe deram bofetadas, enquanto outras pareciam contentes – no saldo geral, disse-me Harrer, a maioria ficou contente.

Mas a moça que ele amava, a inesquecível, continuava desaparecida! Harrer estava inconsolável. Quase não tinha mais dinheiro, suas férias chegavam ao fim – e nem sinal da moça. No último dia das férias, à noite, ele arrastou-se, parado, o pobre-diabo – quando a avistou novamente!

Andava à frente dele, a uns quize passos. Devagar, com uma perna dura, mancando um pouco. Mas era ela! Não havia dúvida!

O coração de Harrer batia como um martelo. Um suor frio brotou de todos os poros de seu corpo. “Meu Deus, meu Deus”, pensava ele, “é ela, é ela! Eu a encontrei outra vez.” Ela atravessou a rua. Ele também. Ela entrou numa rua lateral, depois em outra. “Meu Deus,” pensava Harrer, “mas esta é a rua em que moro!”

Começou a correr e chamou:
– Olá! Olá Senhorita!
A moça parou. Parou exatamente diante do prédio em que Harrer tinha seu apartamento. Ele a alcançou, arquejante, e disse:
– Eu… eu… estou tão feliz!
– E eu! – disse ela, e seus olhos brilharam.
– Mas onde você esteve tanto tempo?
– Quebrei o pé – respondeu ela.
– E eu a procurei por toda parte! Na cidade inteira! Quase enlouqueci! – Ele tentava respirar normalmente – Mas pelo amor de Deus onde você mora?
– Aqui – respondeu Evelyn – Aqui, no numero 5.
Harrer recostou-se na parede da casa e suspirou longamente
– E eu – disse ela – moro no 17.

O que era mesmo que eu queria comentar? Ah, já sei. Eu disse que era um história com moral.

Quando se pergunta a Harrer, ele coloca a moral desta história: “A felicidade sempre mora na mesma rua em que moramos. Quando a encontramos, devemos tirar o chapéu, e dizer: ‘Bom dia, querida felicidade!’ “

Meu amigo Harrer diz que é disso que a felicidade gosta.

Mario Simmel

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