II O que dizia meu amigo Anton.

Por: fabiserra

jan 30 2011

Categoria: Sem categoria

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(Sobre alguém que ama de verdade seus livros.)

Já que estamos falando em “coisas grandes”: tenho um amigo chamado Anton que possui mais livros do que vocês possam imaginar. Um quarto cheio deles. As quatro paredes do assoalho ao teto são cobertas de livros.

Meu amigo Anton diz que não há nada melhor do que uma boa biblioteca, nada que abranja de tal maneira o mundo todo, nada tão amplo! Em uma palavra: nada maior. Pois (diz Anton) num aposento cheio de livros estão reunidos os espíritos de todas as pessoas que o escreveram. Bons espíritos, também espíritos maus – é algo muito pessoal. Um gosta de filósofos existencialistas, outro, poesia japonesa sobre o amor. Um gosta de comer mel, outro aprecia sabonete verde. Uma velha história.

As pessoas que leem são tão diversas quanto aqueles que escreveram esses livros. Graças a Deus! Imaginem se fossem iguais! Nem se imagina o tédio que seria! As diferenças têm de existir. Elas é que tornam a vida interessante. A vida em geral. E em especial, a vida com os livros. Pensam que não há vida com livros? Ora, caro senhores, permitam-me dar uma risada!

Mas como existe essa vida! Perguntem ao meu amigo Anton. Ele chega a dizer que não existe vida sem livros.Por mim”, Diz Anton, ” o mundo todo não tem importância se não me deixarem ler.” Os livros são seus melhores amigos, sim alguns são por assim dizer suas amantes. Melhores amantes do que essas que eventualmente temos. Mais leais e sinceros do que algumas amantes vivas. Nunca nos traem, nunca nos abandonam. (Exceto quando por distração os deixamos no trem. Ou na praia. Mas não é culpa deles.)

Não”, diz Anton, “Eu não trocaria meus livros por nada desde mundo: nem dádivas de amor, nem por cigarros Marvel, nem por divisas, nem por um Plymouth cinzento com rádio. ” Pois pensem bem: eventualmente, como todos nós, Anton fica sem dinheiro. E sente-se miseravelmente abandonado, tem de fazer cigarros com guimbas velhas, e nesses momentos ninguém se interessa por ele. Porque ele está sem dinheiro. Ou chove um domingo inteiro, e não pode sair porque acabaria pegando um resfriado fatal. Ou – também isso por vezes acontece – Anton sofre de alguma dor de amor. Ou o chefe no escritório acaba de armar uma briga daquelas, porque a contabilidade no fim do mês não fechou.

Coisas que acontecem. Não só para Anton, mas para todos nós. Também a mim e a você. Só que reagimos de maneiras diferentes. Uns deitam-se na cama, puxam o cobertor sobre as orelhas, e pensam: que bom se agora eu ficasse doente! Outros embebedam-se o mais que podem e pensam: por, mim o mundo todo que se lixe! Outros pegam uma corda e se matam. Outros ainda põem a cabeça nas mãos e choram, suspiram baixinho: “Oh, como a vida é triste!”

Meu amigo Anton tem um método próprio. Senta-se na sua biblioteca, põe as pernas sobre a mesa e lê. Ou fecha os olhos e reflete. E fica escutando as conversas dos livros.

Como? Vocês não sabiam que livros falam? Bem, então perguntem a Anton! Falam, e como! Conversam uns com os outros, baixinho, discretamente. Não fazem nem de longe tanto barulho como as pessoas, e o que dizem tem sentido. É altamente interessante ouvir o que um volume de Shakespeare tem a dizer a um volume de Edgar Wallace. Ou o que Friedrich Schiller diz a Hans Christian Andersen. Ou o que Colette diz a Karel Capek.

Quanto mais fantasia a gente tem, mais entende sobre o que os livros conversam. A fantasia aguça os ouvidos para tudo o que, para as pessoas comuns, simplesmente fica oculto debaixo da mesa. Meu amigo Anton fica estirado, bem quietinho, numa poltrona, comtemplando suas paredes de livros e ouvindo os sábios e importantes cometários de seus moradores. E algumas horas depois esqueceu de tudo: a conta do gás que não foi paga, o buraco na meia, o aborrecimento com Renata e a briga com o chefe. Depois de algumas horas, meu amigo Anton volta a ser um homem feliz. Ficou mais feliz, e ainda outra coisa: ficou mais sábio. Só um pouquinho mais sábio. Não muito. Mas um pouquinho. Não é bom ficar muito mais sábio, nem rápido demais, e assim saltar para o futuro. A pessoa que salta para o futuro depressa vai à ruina. Por isso é muito melhor tornar-se mais sábio devagarinho, dia após dia. Só dessa maneira, quando a agente se esforça constantemente a um estágio de  conhecimento e, depois de sabedoria. E é a biblioteca de Anton que o ajuda nisso: realizar uma educação regular e profunda do coração.

Por isso ele ama tanto seus livros! Por isso diz que não há nada “maior” do que uma tranquila biblioteca. Por que ela é sempre capaz de dar duas coisas a quem a possui ou visita: sabedoria e alegria.

Acho que devíamos falar um pouco sobre alegria.

Mario Simmel

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