VI Sobre o Trato com os livros

Por: fabiserra

mar 06 2011

Categoria: Sem categoria

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(Pela maneira como alguém lida com seus livros
sabemos como lida com as pessoas.)

 

Quando alguém escreve um livro, ele no começo não é um livro: não é nada além de um maço de folhas escritas. Com muito amor e competência, editor, revisor, diagramador, linotipista, impressor e encadernador devem tratar de transformar um pilha de folhas soltas em um belo livro. Mas este por sua vez exige que o tratem com amor, conforme merece sua boa estirpe.

Infelizmente há gente que trata seus livros de maneira miserável. Dobram-nos até que as lombadas se desprendam e as costuras se rompam, viram as pontas das páginas, cobrem as capas com tintas, derramam café na capa e usam um volume de poemas para calçar um pé de mesa da copa, que está na cambaia.

Na frança há editoras que fazem livros baratos, do tipo destinado a esse tratamento e que realmente não se pode ler mais que uma vez. Pois eles se desmancham. Isso foi imaginado para que ninguém sinta pena se os esquecer no metrô. Ou no cabeleleiro. Ou em qualquer outro lugar.

Mas para pessoas que amam seus livros, há na França estabelecimentos em que qualquer um pode mandar encadernar seus amados como quiser. É outra razão para existirem as edições baratas.

Mas de modo geral isso não é jeito de lidar com livros.

Ninguém pensaria em dar uns tapas e puxar o cabelo de um bom amigo, com o qual passou horas divertidas e contemplativas, e que além disso nos ajudou como pôde, que nos livrou de tédio, tristeza e solidão. E ninguém pensaria em cortar a gravata do chefe de quem espera obter um adiamento, ou em sujar a sua camisa com ovos mexidos.

Nossos livros também não existem apenas para nós. Nós também existimos para nossos livros! A amizade que nos une é uma amizade que obriga as duas partes a ter consideração e eventualmente gentilezas, como, por exemplo, tirar poeira e mandar encadernar. Uma pessoa que entra numa livraria e pede “dois metros e meio de livros, daqueles com lombadas de couro douradas”, porque acabou de comprar uma estante que por acaso tem dois metros e meio, essa pessoa não devia ir a uma livraria, e sim ao tribunal. Não basta ter uma biblioteca se não temos relações pessoais com ela. Os livros notam direitinho quando caem nas mãos da pessoa errada: ficam cinzentos e desbotados de tanto desgosto, sua borda dourada não brilha mais e de mágoa perdem uma ou outra folha.

E sabem distinguir muito bem pessoas que compram livros só para se pavonear com eles, e outras que entenderam que nada torna uma casa mais aconchegante e bela do que livros.

É totalmente indiferente o tamanho da moradia. Pode ser uma água-furtada ou a sala de uma embaixada, um escritório ou uma cozinha. Sim, até uma cozinha! Também ela se tornará mais clara e amável com uma tábua branca e alguns livros numa parede.

É preciso saber viver com os livros. Não são necessário armários caros ou imensas prateleiras. Algumas tábuas aplainadas e aparafusadas, algum nicho, uma beirada, uma pequena prateleira junto de uma janela bastam. Ninguém poderá se esquivar do fascínio das lombadas coloridas, e você próprio ficará mais calmo e mais feliz em companhia desses velhos amigos, que você não deseja ter consigo apenas uma vez, mas para sempre.

E trate bem seus amigos. Uma amizade é algo precioso e facilmente fenece, como uma flor rara. Por isso, tome cuidado! Livros não são rancorosos. Mas, como você já sabe, têm coração e alma, que podemos ferir. Livros podem adoecer.

É tão necessário ter em casa uma cozinha e um banheiro quanto aquele recanto em que há algumas dúzias de livros. Desse recanto é que brota a atmosfera de sua moradia. O conceito de “estar em casa” liga-se ao conceito de algo aconchegante. E nada é mais aconchegante do que nossos velhos amigos, os livros.

“Muitos destinos humanos”, escreve Eduardo de Amicis, “já foram determinados pelo fato de haver em seu lar uma biblioteca ou não. Uma casa sem livros tem algo na vulgaridade de uma estalagem…”

Mario Simmel

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