Meu íntimo desesperado

Por: fabiserra

abr 24 2011

Categoria: Fabiana Serra

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Desde que ele se foi passo o dia a olhar para janela, ver se ele volta. Ele disse que voltaria, com flores. Não recebo mais notícias dele faz 19 dias. Não como mais, não durmo, não sorrio, não banho mais. Não tenho mais motivos para nada. Minha existênica se tornou insignificante. Sou uma vil mulher que não faz mais nada além de esperar o dia que ele voltará.

Há dois anos e meio ele foi para a guerra. Guerra estúpida. Não consigo sequer lembrar o rosto dele, será se ele lembra o meu? Talvez se lembre, provavelmente não. Talvez esteja morto. Quem sabe tenha levado um tiro entre os olhos, quem sabe esteja agora jogado numa pilha de corpos ensanguentados. Quem sabe? Eu não sei.

Ele seria só mais um corpo para quem ver esta pilha, mas para mim não. Ele estaria em evidência. Essa imagem me assombra manhã e noite, tarde e madrugada. Pela noite, se durmo, a imagem penetra em meus sonhos. Estou lá, o vejo morrendo, mas não posso fazer nada! O homem que eu amo está morrendo e eu não posso impedir! Ele cai no chão com o coração aberto, e eu acordo gritando. Se não durmo, penso em todas as formas que ele poderia  ter sido morto.

Ah, esta loucura me invade, é a minha companheira todas as horas, a única que ainda me escuta. Porque ninguém me ouve por mais alto que grite? Ah, eu quero morrer, morrer! Eu morreria com ele. Me matem também, eu morro, morro! Mas quero morrer com ele! Não permitam que ele morra se eu ainda estiver viva.

6 meses se passaram desde aquele meu surto de loucura. Loucura ou desespero? Ou saudade? Minha loucura teve sentido, é mais sã que a sanidade de todos aqueles que disseram que sou louca. E depois de 6 meses, ainda espero, ainda choro. Mas finalmente recebi uma carta, ele está voltando. Não me importo se ganharam ou perderam a guerra, o que me importa é que ele vai voltar.

Ele vem, com flores espero. A dor é insuportável. O que sinto não se chama mais saudade, é como se tivessem arrancado uma parte de mim, a parte mais bonita, e me deixado aqui para morrer.

Aonde está você? Porque ainda não chegou? As horas sufocam, os dias me enforcam. E eu não saio da janela tenho de te ver chegar. Tomei um banho decente, vesti meu melhor vestido. Passei o perfume que você gosta. Tentei disfarçar as olheiras com maquiagem, mas não adiantou.

Esboço um sorriso amarelo quando te vejo dobrar a esquina. Alguns minutos depois e você chega. Com flores.

Não te reconheço, nem tu me reconheces. A guerra afetou a nós dois de maneiras diferentes, mas com a mesma intensidade. Olho em teus olhos, que agonizam, que mostram a dor da guerra, que procuram em mim a mulher que tu amas. Continuam tão sinceros, tão calmos, tão azuis. Também procuro em ti o homem que amo. O encontro em tuas mãos. As mãos que me reconhecem.

Nenhuma palavra foi dita, as flores já estão no chão. Somos como dois estranhos, recomeçando nossa vida do zero, nos conhecendo novamente. Esquecendo o que quase nos matou, a guerra, a loucura, a saudade. Ah, e eu sei que quando tu olhas para mim sabe o que estou pensando: “Ele não morreu na guerra.” Sabes o quanto estou aliviada. Finalmente posso ter de volta este homem. Nunca mais me deixe.

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