Eu

Por: fabiserra

out 06 2011

Categoria: Fabiana Serra

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Eu, eu sou meu próprio tempo. Meu tempo sem tempo que se derrete a todo instante, que mente, que sente. Sou minha máscara encravada no rosto que se repete todo dia, que se repete. Que se perde. Se sucede.

Eu que não pertenço, que não penso, que não sei, que não sou. Eu, eu chorei. Eu menti, eu fingi e sorri. Sorri fingindo, cantarolando e pulando e voando. Fingi tanto que o fingimento chegou a ser verdade, e ele é, e ele foi. Ele se foi. Mas eu sei que não é. Eu sinto, e só eu sinto por mim. Sou feliz e não sou. Tenho tanto e me falta muito. Mas por quê? Porque essa escassez e abundância? Porque não ir? Porque não voltar? Por quê?

O tempo passa pelos cílios só a tempo de se piscar. Passa quase sem se perceber, mas eu percebi. Ele passou há muito tempo e daqui há muito tempo ele vai voltar. Ele se demora tanto que não vê a hora. Eu me perco tanto em seus caminhos e instantes que esqueço porque entrei naquela esquina. E porque te olhei? Ah, porque te olhei?

Me confundo comigo mesma em mim, sou eu ou sou eu? É o tempo? Eu que não sei. Sou um ser abstrato com um coração pesado, que cai. Eu caio até o fundo mais fundo e chego à superfície. Nunca se chega ao fundo. Nunca se sai da superfície.

Por mais que eu ande por entre todas as trevas e toque sempre o chão, o chão nunca vai ser o fim, nunca vai ser aquele fundo que se toca e diz: cheguei ao máximo. Nunca vai ser mais do que um chão, um chão que se pisa.

E os meus olhos no espelho não me pertencem, são uma parte independe de mim mesma que se revelam sempre sem que eu autorize, é inevitável, eles sempre dizem a verdade, sempre me entregam. Não posso fazer nada, por mais que eu minta quero que tu saibas a verdade, a verdade que está em meus olhos.

Nunca minto senão para minha proteção, para me guardar do mundo. Nunca amei senão por amar. Meu amor é puro. É o sangue que corre ríspido nas minhas veias e que não para, não para porque meu coração ainda bate e és tu que o bombeia. Mesmo se eu morresse meu coração continuaria a bater, e bateria em confronto com as batidas do relógio. E os segundos, que antes escapavam, agora seriam obrigados a voltar e o mundo daria voltas e mais voltas e o tempo mesmo assim nunca haveria de acabar.

 Eu, eu não tenho tempo, eu sou o tempo. Os anos todos podem passar e eu continuarei aqui, intacta, imóvel, obstinada, eternamente a esperar.

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